22 Jun

                                                                  NOWATZKI, Carlos H.

O volume total de água nos oceanos, mares, lagunas, lagos, rios, geleiras, lençóis freáticos e atmosfera é de quase 1,5 bilhão de km³, mas as reservas de água doce são muito limitadas.

Geleiras à parte, o maior estoque de água doce em estado líquido (97%) se encontra em subsuperfície. As águas das chuvas, rios, lagos, neblinas, neves e lagunas migram lentamente para o interior da Terra pelos poros e interstícios dos solos e das rochas, retornando à superfície naturalmente (rios, lagos, nascentes, etc.) ou por meio de buracos escavados ou perfurados. O reabastecimento do lençol ocorre nos pontos de recarga, tais como afloramentos (exposição de rochas) e banhados. Existem lençóis fósseis formados há milhares ou milhões de anos, cuja água se encontra "aprisionada" entre camadas de rochas impermeáveis.

Mas, e o Brasil? Quais são as nossas reservas de água doce? Possuímos 1/5 do volume global de água doce da Terra, com nossas reservas subterrâneas estimadas em mais de 112 trilhões de metros cúbicos, distribuídas por diversos aquíferos. A distribuição regional dos nossos recursos hídricos é desigual, concentrando-se o maior percentual no Norte e o menor no Nordeste. Os setores que mais utilizam o precioso líquido são a agricultura (em primeiro lugar), o uso doméstico e, por último, a indústria. 

O maior e mais importante aquífero sul-americano é, na realidade, um sistema: o Sistema Aquífero Guarani (SAG), com 1.200.000 km², distribuídos pelo Brasil (737.084 km², 68%), Argentina (225.118 km², 20,8%), Paraguai (87.521 km², 8,1%) e Uruguai (34.341 km², 3,1%).

Em território brasileiro, o SAG se estende pelos estados de Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, ocupando camadas geológicas diversas, sobrepostas e com idades variáveis. Como traço comum, as rochas dessas unidades são compostas por níveis de lamitos (lamas consolidadas) e arenitos (areias consolidadas), sendo estes últimos considerados bons aquíferos graças à sua granulometria.

As notícias iniciais davam conta de que o SAG seria uma das maiores reservas de água subterrânea do mundo, capaz de abastecer a população brasileira pelos próximos 2.500 anos. Porém, o avanço das pesquisas mostrou que o reservatório não é homogêneo, nem contínuo, e tampouco ultrapassa os limites com os países vizinhos — característica também presente entre os aquíferos que formam o SAG no Brasil.

No Rio Grande do Sul, a água é encontrada a poucos metros da superfície ou a mais de 1.200 m de profundidade, com qualidade que varia de boa para consumo humano a salobra ou mesmo salgada. Em outras regiões do estado, há registros de presença de flúor e outros elementos capazes de provocar danos à saúde, além de altas temperaturas (acima de 68 °C) em alguns pontos. No Paraná e em São Paulo, grande parte da água do SAG é igualmente salobra. Em alguns estados, a água pode ser encontrada a 1.500 m de profundidade, com vazão superior a 700 m³/h, mas nos poços gaúchos a vazão varia de 150 m³/h a menos de 5 m³/h, existindo até poços com vazões irrisórias — ou sem vazão alguma.

Análises cronológicas indicaram que a água pode ter idades entre 10.000 e 50.000 anos, evidenciando, nos pontos estudados, a provável falta de reposição (recarga). Como a água subterrânea flui muito lentamente — de alguns metros a um metro por ano —, pode haver o esgotamento de poços caso o volume de remoção, que é praticamente instantâneo, supere o de sua reposição, que é muito lenta. Os estudos mostram que seria necessária uma recarga de 160 km³/ano de água como ideal para permitir uma exploração de, no máximo, 40 km³/ano.

A remoção desregrada pode levar à desativação do poço pelo surgimento de dificuldades que aumentam continuamente à medida que se processa o bombeamento. É o caso de Ribeirão Preto (SP), município localizado em área de recarga. Lá, o aquífero já rebaixou 60 metros desde 1970, provavelmente porque (1) o consumo médio por habitante da cidade é de 400 L/dia, quase o dobro da média nacional, e (2) obras civis — como asfaltamento, construção de prédios e calçamentos — dificultam ou impedem a infiltração da água da chuva que reabasteceria o aquífero.

Entre as tantas informações equivocadas divulgadas, está a de que o SAG vem sendo contaminado em algumas regiões. Contudo, constata-se que, nesses locais, a pressão da coluna de rochas sobrepostas (Formação Serra Geral) é muito alta, característica que força a migração da água para cima, impossibilitando a descida do poluente. A poluição ocorre, mas em áreas onde o SAG está submetido a baixas pressões e nos pontos de recarga. São Paulo, Paraná e a fronteira entre Rio Grande do Sul e Uruguai são as regiões de recarga mais propícias à contaminação. É conveniente lembrar que, uma vez contaminado, torna-se muito difícil e caro reverter o processo.

Segundo alguns estudiosos, a água disponível nos basaltos sul-brasileiros (Formação Serra Geral) posicionados sobre o SAG não só ocorre em toda a extensão do sistema, como sua qualidade é superior à do Guarani.

Os estudos mais recentes mostram que a falta d'água já é uma realidade assustadora em 29 países. Em 2025, a cada três habitantes da Terra, dois foram afetados, em maior ou menor escala, pela escassez de água.

A China, com uma população de 1,41 bilhão de habitantes, não limita a exploração de suas reservas de água — quadro semelhante ao registrado na Índia, cuja população de 1,48 bilhão de pessoas convive com o esgotamento hídrico de seus principais mananciais, inclusive do rio Ganges, o mais importante deles. 

Uma perspectiva positiva para o Oriente Médio é a de que, em 2050, haverá o uso de esgoto tratado em atividades industriais e agrícolas. Já para 2040, estima-se que os habitantes do norte da África conviverão com uma redução de 80% na oferta de água. Essa visão dramática do futuro foi prevista pelo Banco Mundial em 1995, quando alertou para a possibilidade de conflitos armados e guerras pela posse da água no século XXI.

A partir desses dados, algumas perguntas se impõem: já que aqui há abundância de água doce, o Brasil pode estar na mira de outros países? Quanto ao SAG, o que temos feito para conhecê-lo melhor e, assim, utilizar suas reservas de modo adequado? 

Recentemente foi concluído o Projeto de Proteção Ambiental e Desenvolvimento Sustentável do Sistema Aquífero Guarani, financiado pelo Banco Mundial e por universidades do MERCOSUL, cujo objetivo foi criar parâmetros para implantar gestão coparticipativa e uso sustentável do SAG por Argentina, Uruguai, Paraguai e Brasil. Para alcançar a meta principal — ou seja, detalhar hidrogeologicamente o aquífero —, definiram-se as áreas de recarga e descarga, analisaram-se a qualidade química e a potabilidade das águas e avaliou-se o volume das reservas. Aos governos desses países, resta implantar a normatização do uso das reservas aquíferas do SAG.

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