30 May

                                                                  NOWATZKI, Carlos H. 

     Um dos temas mais discutidos atualmente é o do aumento gradual da temperatura superficial média da Terra, que pode, segundo estudiosos, não só extinguir algumas espécies, mas todos os seres vivos. A culpa pelo aquecimento global, para parte da população, tem sido imputada ao homem moderno por promover o avanço desordenado da agricultura e da urbanização, em detrimento de áreas vegetadas, e também por estimular a industrialização a qualquer preço. 

     As queimadas realizadas pelo homem, mas em especial o lançamento de poluentes, contribuem decisivamente, segundo órgãos midiáticos, para amplificar o efeito estufa. De acordo com as pesquisas, o dióxido de carbono (CO2), o metano (CH4), os óxidos de nitrogênio (N2O, NO, NO2) e o ozônio (O3) troposférico dilataram sua presença na atmosfera em 31%, 151%, 17% e 36%, respectivamente, a partir do início da Era Industrial (1750). 

     No que diz respeito ao CO₂, pouca culpa lhe cabe, pois está provado ser ele uma consequência e não uma causa, ocorrendo inclusive uma defasagem de tempo de 800 anos entre a elevação da temperatura e a liberação do gás. A par disto, o dióxido de carbono é responsável apenas por 3,6% do efeito estufa, dos quais somente 0,11% são antropogênicos. É bom lembrar que estudos norte-americanos e russos mostram que os florestamentos novos são capazes de absorver a maior quantidade de carbono do que aquela liberada em desflorestamentos. Por fim, durante fases interglaciais passadas, as temperaturas eram mais altas do que as de hoje (entre 6 °C e 10 °C), e as taxas de CO₂ estavam abaixo da porcentagem atual.

     Os dados meteorológicos analisados desde 1860 confirmam o aumento da temperatura e o derretimento das geleiras de latitude (polos) e de altitude (montanhas). As consequências mais notáveis da elevação da temperatura são os aumentos da taxa de evaporação, da cobertura por nuvens, da precipitação pluvial com aprofundamento da erosão, e da quantidade e intensidade das tempestades, furacões e tornados. Grande parte da dispersão do calor superficial da Terra é realizada pelas correntes marinhas e, à medida que a temperatura sobe, observam-se mudanças no padrão de circulação das águas oceânicas. 

     Há provas cabais da existência de períodos de esfriamento e aquecimento da superfície terrestre muito antes do surgimento do Homo sapiens sapiens. Na verdade, o fenômeno natural esfria (glaciação) – aquece (interglaciação) remonta a milhões de anos. Como é sabido, o aquecimento resulta na fusão do gelo, o que ocasiona o aumento no volume dos oceanos e a invasão marinha de áreas continentais (transgressão). No resfriamento, a água é solidificada (glaciação), reduzindo-se o volume dos oceanos e tornando-se visíveis porções continentais anteriormente submersas (regressão). 

     As medidas da variação global relativa do nível do mar (eustasia) indicam que ocorreu uma subida de 125 m nos últimos 20.000 anos, mantendo-se aproximadamente constante em 1,8 mm/ano nos derradeiros 4.000 anos. A partir de 1900, contudo, foram adicionados 0,6 mm/ano devido ao efeito estufa causado antropicamente, fator antes inexistente. Os dados indicam que o nível do mar subiu no século passado, no Brasil, 21 cm; porém, se forem analisadas as séries mais longas, a elevação terá sido de 40 cm. 

     Diversos cientistas acreditam que a radiação solar tenha um papel fundamental nas sucessões de aquecimento (interglaciação e transgressão) e esfriamento (glaciação e regressão). O Dr. Milutin Milankovitch (1879-1958, sérvio, engenheiro civil e geofísico) foi quem mais se dedicou ao tema. No ano de 1920, ele lançou estudos matemáticos que indicavam que as forças gravitacionais dos planetas do sistema solar alteravam-se, de maneira cíclica (Ciclos de Milankovitch), ao longo dos milênios, aí incluídos certos parâmetros astronômicos da Terra. Os ciclos da precessão dos equinócios, a intervalos de 19.000 a 23.000 anos (para outros 24.000 anos), da obliquidade do eixo, a períodos de 41.000 anos, e da excentricidade da órbita, a cada 100.000 anos, influenciam na quantidade de calor recebido e, se associados a outros fenômenos, como a variação na radiação solar, desencadeiam glaciações e interglaciações. 

     Estudiosos concordam que o atual aumento progressivo da temperatura (interglaciação) é um acontecimento natural, como o que sucedeu a uma mini glaciação, chamada Pequena Idade do Gelo (PIG), registrada entre os séculos XIV e XIX, que agora chega ao fim. Estaríamos, portanto, de acordo com eles, vivenciando os momentos imediatamente anteriores ao início da queda progressiva da temperatura global, que poderá culminar em um novo período glaciário. 

Após expor os dados acima, chegamos, mais uma vez, à pergunta: mudança climática é fato ou lenda? A resposta mais sensata é que, aparentemente, os sinais apontam para um provável novo período de resfriamento, portanto, não se trata de uma lenda, mas de fatos. 

     Por outro lado, pelo menos duas questões ainda ficam sem respostas: por que quem defende a hipótese de que as ações do ser humano são a causa do aquecimento global acaba deixando de lado o que já se sabe sobre as origens das glaciações e interglaciações passadas e a teoria dos Ciclos de Milankovitch? E mais: qual o sentido de apontar o ser humano e o CO₂ como os grandes responsáveis pelo aquecimento global, se os dados científicos não sustentam estas opções?

 Bibliografia

CHRISTOFOLETTI, A., 1999. Modelagem de Sistemas           Ambientais. São Paulo, Editora Edgar Blücher Ltda., 236 p.

COCKELL, C. (Org.), 2011. Sistema Terra-Vida. Uma               introdução. São Paulo, Oficina de Textos, 360 p.

SUGUIO, K. e SUZUKI, U., 2003. A evolução geológica da Terra e a fragilidade da vida. São Paulo, Editora Edgar Blücher Ltda, 152 p.


Comentários
* O e-mail não será publicado no site.