25 May

                                                       NOWATZKI, Carlos H.

    Estamos acostumados, há anos, a chamar de gaúchos todos os habitantes naturais do Estado do Rio Grande do Sul (RS). Contudo, nem sempre foi assim, eis que o termo gaúcho, por definição, era usado para designar, nos séculos XVII e XVIII, na então Província de São Pedro do Rio Grande do Sul (PSRS), indivíduos especializados em determinado tipo de trabalho que tinham hábitos, cultura, linguajar e arte diferenciados do restante da população, ainda que fossem todos naturais da mesma província.

    Gaúcho (português) ou gaucho (espanhol, pronúncia gáucho) era usado para identificar o indivíduo que habitava o interior da PSPRS, da região Cisplatina (CIS), hoje Uruguai (URU), e da Argentina (ARG).

   Inicialmente denominados gaudérios1, conheciam profundamente as lides campeiras e tinham origem portuguesa, espanhola ou indígena. Eram também temidos, pois tornaram-se especialistas no furto de gado (abigeato), entregando o “produto” a quem os tivesse contratado.

       A origem da palavra gaúcho é até hoje discutida, mas a maioria dos etimologistas2 sugere que provém do quíchua, língua inca ainda falada por mais de 10 milhões de pessoas na região andina. O termo huachu (órfão, vagabundo) foi adaptado pelos espanhóis (guacho) e, posteriormente, transformado em gaucho. Já os portugueses readaptaram o gaucho dos espanhóis para gaúcho.

    Naquele período, havia a clara distinção entre o chamado gaúcho e o habitante das Vilas e Freguesias (povo urbano) da PSPRS, da CIS e da ARG, com profissões e hábitos diversos dos habitantes das áreas de campo (estâncias = fazendas).

    Nos séculos XIX e XX, contudo, a palavra gaúcho passou a definir todo e qualquer nativo do RS, independentemente se é interiorano ou urbano, especialista nas lides campeiras ou balconista, se é adepto da cultura gauchesca ou da urbana. Creio que aí reside a diferença que separa estes dois grupos, eis que o modo de vida, as expressões artísticas, os hábitos, as profissões, a busca da concretização de seus sonhos, a sua realidade, são completamente diversos. 

    Esta unificação do que é desigual, na minha modesta opinião, não deveria existir, pois a história e a tradição nos mostram que os sul-rio-grandenses são os nativos do RS e, entre eles, há gaúchos. Da mesma forma, há gaúchos entre os uruguaios e os argentinos, mas nem todo uruguaio e argentino é gaúcho. O gauchismo conecta fortemente parte da população do URU, da ARG e do RS, mas não se estende a toda a população, seja ela do RS ou de determinados estados daqueles países. 

     O termo gaúcho em dicionários da língua portuguesa preserva, até os dias atuais, o mesmo conceito então vigente há 200 anos, contudo, estende a palavra para abranger toda a população sul-rio-grandense. Já para os uruguaios e os argentinos, o termo é empregado apenas para os habitantes das zonas rurais (pampa) daqueles países.


Bibliografia

Dicionário Gaúcho. Vocábulos e expressões gauchescas. Colafina & Cascagrossa. Blogger. Online. Acessado em 12.05.2026.

Pequeno Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. 2015. Instituto Antonio Houaiss de Lexicografia. 1.ª ed., Editora Moderna Ltda, São Paulo, 1114 p. ___________________________________________________________

1. Pessoas sem pousada certa, parasitas, perdidas como cão sem dono, que acompanhavam alguém, mas logo o abandonavam e seguiam outro. Tornaram-se famosos por roubar gado das estâncias.

2. Estudiosos que investigam a evolução das palavras desde suas formas originais até o uso atual.


     



               


       


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