09 Jun

Esculpido em Portugal e fincado na Bahia em 1526, o Marco do Descobrimento já "viajou" mais de 14 metros sem sair do lugar. Entenda a ciência por trás desse mistério.

                                                                 NOWATZKI, Carlos H.

     Em 1526, os portugueses suavam em bicas para cravar no chão o Marco do Descobrimento das Terras de Santa Cruz. Eles esculpiram em Portugal um baita bloco de rocha cheio de símbolos reais e explicações (figura 1), sem fazer a menor ideia de que, 484 anos depois, a baliza simplesmente sumiria dali.

     A história é digna de filme: após passar anos desaparecido, o marco foi encontrado em um bar de Porto Seguro (BA), servindo de balcão! Após ser resgatado, ele foi levado para o local atual. Mas aqui vem o nó na cabeça: mesmo se ninguém tivesse tocado na rocha, a comparação entre as coordenadas geográficas de 1526 e as de 2026 mostraria que ela se moveu, pelo menos, 14,50 metros para o oeste.

Uma carona de mais de 14 metros rumo ao oeste.

     Como isso é possível? A culpa não é de nenhum fantasma colonial, mas sim do próprio planeta. Se cortássemos a Terra ao meio, da superfície até o centro, veríamos quatro grandes camadas: a Crosta Terrestre (CT), o Manto (MA), o Núcleo Externo (NE) e o Núcleo Interno (NI). O estado físico de cada uma varia bastante: a crosta e o núcleo interno são sólidos, o núcleo externo é puro líquido pastoso, e o manto tem uma consistência plástica. A espessura delas também muda muito, indo de poucos quilômetros a imensidões profundas.

Terra em camadas: o bolo geológico.

     A nossa crosta se divide em duas partes: a superior (CTS) e a inferior (CTI). A superior só existe nos continentes, enquanto a inferior forma o fundo dos oceanos (e também pode ficar por baixo da superior). Nos continentes, a crosta é mais grossa e chega a 70 km de espessura, mas nos oceanos pode ter só 5 km. Além disso, a crosta superior é feita de rochas mais leves (ricas em sílica e alumínio), enquanto a inferior carrega minerais bem mais densos e pesados, como os silicatos de magnésio. Como as densidades são diferentes, quando a Terra resolve "apertar" uma região, a crosta superior costuma subir e passar por cima da inferior (figura 2).

O grande quebra-cabeça que flutua.

     Para completar o cenário, a crosta terrestre não é inteiriça. Ela é quebrada em blocos gigantescos — as famosas Placas Tectônicas —, que se encaixam como um quebra-cabeça gigante (figura 3). Ignorando os oceanos no desenho, o que temos é a Litosfera, a verdadeira "esfera das rochas". Toda essa crosta sólida fica "flutuando" em cima do manto plástico, que ferve com temperaturas e pressões absurdas. Esse calorão todo cria correntes de convecção: o material superquente das profundezas sobe e o mais frio desce. Essas correntes agem em dupla e, perto da superfície, correm em direções opostas. O resultado? Elas quebram a placa que está em cima e arrastam os pedaços para lados contrários. No espaço que sobra desse afastamento, o material do manto sobe, esfria, vira rocha e aumenta o fundo do oceano. É o planeta crescendo! Olhando de novo para a figura 3, dá para ver o mapa desse trânsito: a Placa Sul-americana é cercada pela Placa Africana (a leste), pelas placas Scotia e Antártica (ao sul), pelas placas de Nazca e Antártica (a oeste) e pelas placas Caribenha e Norte-americana (ao norte). 

O Atlântico está crescendo (e os Andes também!).

      É no meio do Oceano Atlântico que a mágica acontece. No limite entre as placas Sul-americana e Africana, as correntes de convecção empurram a nossa placa para o oeste a uma velocidade média de 3 cm por ano, enquanto a vizinha africana vai para o leste a 2,5 cm por ano. Ao mesmo tempo, lá do outro lado, no Oceano Pacífico, a Placa de Nazca (pesada) bate de frente com a Placa Sul-americana (leve). O impacto faz a nossa "nau tectônica" subir, dando origem à Cordilheira dos Andes. Outro efeito colateral desse distanciamento entre as Américas e a África é que o Oceano Atlântico fica pelo menos 5,5 cm mais largo a cada ano. Essa dança das placas, provada pela ciência desde os anos 1970, faz com que tudo e todos na superfície — inclusive o coitado do Marco do Descobrimento — peguem uma carona gratuita para outros cantos do planeta, mesmo que a gente sinta o chão completamente firme sob os pés.

As engrenagens do nosso planeta.

     A Teoria da Tectônica de Placas (TTP) — ou Tectônica Global (TG) — é a chave de ouro para entender como a engrenagem do mundo funciona. E aí, será que ela também explica a origem de terremotos, maremotos e vulcões? Qual será o impacto dessa grande dança no surgimento e desaparecimento de oceanos, continentes e até das espécies de animais e plantas que vivem por aqui? 

     E você, já sabia que o Brasil se move alguns centímetros por ano? Deixe seu comentário aqui embaixo se você gostaria de um post explicando como essa dança das placas cria vulcões e terremotos!

 

Figura 1. Marco histórico do descobrimento do Brasil, também denominado Padrão do Descobrimento. Confeccionado em Portugal e colocado em Porto Seguro (BA), em 1526. Fonte: Rafael Carvalho, publicado em Esse Mundo é Nosso, online, atualizado em 11.10.2024 e acessado em 6.6.2026.

 

Figura 2. Esquema de corte da Tectônica de Placas. Fonte: Gemini (2026). Imagem gerada por inteligência artificial (IA), disponibilizada em chat de interação assistida por IA. Criada e acessada em 6.6.2026.


Figura 3. Placas Tectônicas e seus limites. www.age-of-the-sage.org/tectonic_plates/tectonic-plates-boundaries.gif. Acessado em: 6.6.2026.


Referências

CARVALHO, R., 2024. Esse Mundo é Nosso. Online. Fonte:  www.essemundoenosso.com.br/cidade-historica-de-porto-  seguro. Acessado em 6 de junho de 2026.

GOOGLE, 2026. A Tectônica de Placas: esquema em corte.  Imagem gerada por IA por meio do comando “desenho da Tectônica de Placas vista em corte”.  Disponibilizada em chat de interação assistida por IA. Acessada em 6 de junho de 2026.

PLACAS TECTÔNICAS E SEUS LIMITES, 2026. Fonte: www.age-of-the-age.org/tectonic-plates-boundaries.gif. Acessado em 6 de junho de 2026.

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