O Ganges, considerado divino pelo hinduísmo, enfrenta níveis alarmantes de poluição e ameaça milhões de vidas.
NOWATZKI, Carlos H.
Há décadas, especialistas vêm alertando para a crescente escassez de água potável no mundo. Em muitos países, esse recurso vital já é insuficiente — quase sempre em razão do uso inadequado e da falta de políticas eficazes de preservação. O manejo responsável da natureza depende de fatores como educação, cultura, religião, economia, densidade populacional e até mesmo das taxas de natalidade e mortalidade.
No Brasil, governos municipais, estaduais e federal afirmam apoiar a preservação ambiental e a exploração sustentável dos recursos naturais. No entanto, os investimentos em saneamento básico e em projetos consistentes de proteção da natureza continuam escassos. As intenções permanecem no discurso, enquanto a prática pouco se altera. O povo, por sua vez, repete os slogans oficiais, mas mantém hábitos que perpetuam o problema.
Apesar disso, a maioria dos brasileiros não deseja ver o país atingir os níveis de poluição já observados em outras partes do mundo. Dentro do bloco econômico BRICS — que reúne Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã — há exemplos alarmantes de degradação ambiental, especialmente dos cursos d’água. O caso mais emblemático é o do rio Ganges, na Índia.
Nascido das geleiras do Himalaia, o Ganges — ou Ganga — é um dos maiores rios da Ásia. Suas águas cristalinas nas cabeceiras (figura 1) contrastam com os trechos finais, onde o rio se divide em canais lentos e altamente poluídos antes de desaguar no Golfo de Bengala. Com 2.510 km de extensão e uma bacia hidrográfica que abriga cerca de 450 milhões de pessoas, o Ganges é considerado sagrado pelo hinduísmo. Para os fiéis, banhar-se em suas águas significa purificação espiritual, pois o rio é a materialização da deusa Ganga (figura 2).
Mas a sacralidade não foi suficiente para protegê-lo. Diariamente, toneladas de esgoto doméstico e industrial, resíduos agrícolas, lixo urbano e até restos humanos são lançados em suas águas (figura 3). O resultado é devastador: já na década de 1970, mais de 600 km do rio estavam ambientalmente mortos. Em 2025, a situação se agravou ainda mais, com a perda de mais de 50% do volume de água em comparação a anos anteriores, consequência da pior seca registrada nos últimos 1.300 anos.
Os números impressionam: em alguns pontos, a presença de coliformes fecais chega a 29.000 por 100 ml de água, e a bactéria Escherichia coli pode atingir 10 milhões por 100 ml. Estima-se que mais de meio milhão de pessoas morram anualmente na Índia em decorrência de doenças transmitidas pelo contato com águas contaminadas. Além disso, a profundidade do rio, que já foi de 60 metros, hoje não passa de 10 em certos trechos, resultado do assoreamento, da construção de represas, da irrigação intensiva e do derretimento das geleiras himalaianas.
O Ganges agoniza diante da contradição humana: ao mesmo tempo em que é reverenciado como divino, é tratado como depósito de resíduos. A pergunta que ecoa é inevitável: pode uma deusa agonizar? A resposta, infelizmente, é sim — quando a fé não se traduz em cuidado e responsabilidade.

Figura 1. Nascente do rio Ganges no Himalaia. Fonte: Brasil Escola, online. Acessado em 10 de junho de 2026.

Figura 2. Ilustração da deusa Ganga, uma das divindades do hinduísmo. Fonte: https://www.bing.com.images, online. Acessado em 11 de junho de 2026.

Figura 3. Pessoas em meio ao lixo banhando-se no rio Ganges. Fonte: www.pensamentoverde.com.br, online. Datado de 2016. Acessado em 11 de junho de 2026.
Referências
BRASIL ESCOLA, 2026. Nascente do Rio Ganges, online. Link: https://s3.static.brasilescola.oul.com.br/be/2021/05/rio-ganges.jpg. Acessado: 10.6.2026.
DEUSA GANGA, 2026. Ilustração da Deusa Ganga, online. Link: https://www.bing.com/images. Acessado: 11.6.2026.
PENSAMENTO VERDE, 2016. A poluição do rio Ganges e como isso afeta a população. Online. Fonte: www.pensamentoverde.com.br/meio-ambiente/poluição-rio-ganges-e-como-isso-afeta-população/google_vignette. Acessado em: 11 de junho de 2026.