02 Jul

                                                                      NOWATZKI, Carlos H.

Muitos autores chamaram a atenção para o fato de a maioria da população brasileira imaginar ser o Brasil um país culturalmente homogêneo de norte a sul e de leste a oeste. Esta suposição ressalta quando se trata do Rio Grande do Sul (RS), eis que os habitantes nativos daquele estado são avaliados como pessoas que pretendem se diferenciar do restante da população brasileira. 

É justamente aí que reside o problema: o gaúcho, aqui no sentido de naturalidade sul-rio-grandense, se diferencia das demais culturas regionais do paísA maioria do povo brasileiro, foi formada a partir de ancestrais com olhos voltados para a Europa, em especial para Portugal. Já os nativos e os desbravadores do extremo sul da nação dirigiam seus olhares para as regiões onde hoje estão o Uruguai e a Argentina. O fato motivador deste diferencial foi a implantação do Tratado de Tordesilhas, que incluiu, entre outras regiões, as terras uruguaias, argentinas e sul-rio-grandenses à Espanha. Portanto, não se trata de querer ser folcloricamente diferente, mas sê-lo por origem.

Isto posto, torna-se fácil compreender que o termo gaúcho não é uma exclusividade dos habitantes do RS, pois também é usado para designar os vaqueiros uruguaios e argentinos, cujas lides campeiras ocorrem em áreas de campos e pastagens. O somatório destes detalhes é a razão para que os costumes, expressões, hábitos, danças, músicas e história unam fortemente os sul-rio-grandenses aos “irmãos” do Uruguai e da Argentina.

Todas as nuances que envolveram a formação não só do RS físico, mas também da cultura e de seu povo foram analisadas, entendidas, registradas e divulgadas em profundidade, pela primeira vez, pelo Dr. Hemetério José Velloso da Silveira (figura 1).

Figura 1. Fotografia do Dr. Hemetério José Velloso da Silveira. Fonte: SANTOS, P. V. dos, 2017, Almanet,  on line. Acessado em 1.7.2026.


Mas, quem foi ele?

O Dr. Hemetério José Velloso da Silveira nasceu em Recife, capital do Estado de Pernambuco (PE), no dia 21 de julho de 1824. Seus pais, o coronel Hemetério José Velloso da Silveira e Anna Joaquina da Silveira, também eram naturais da capital pernambucana. Para evitar confusões, eis que pai e filho tinham exatamente o mesmo nome, o jovem Hemetério era conhecido na cidade como “Júnior”. Ele concluiu seus estudos acadêmicos em Olinda, na faculdade de direito. Esta, depois, deu origem à Faculdade de Direito de Recife.

O jovem advogado se transferiu para Garanhuns (PE), onde desempenhou as funções de delegado de polícia e juiz especial. Posteriormente fixou residência em Pau d’Alho (PE), aí assumindo a função de Promotor Público. 

Em 1855, então com a idade de 31 anos, foi nomeado Juiz de Direito da Vila de São Borja (figura 2), na então Província de São Pedro do Rio Grande do Sul (PSPRS). No Brasil Imperial, o termo Vila designava um assentamento urbano que possuía autonomia administrativa e jurídica, funcionando como sede de um município. Itaqui era então uma Freguesia (algo como bairro) são-borjense.

Figura 2. Mapa da PSPRS, datado de 1852, remodelado por IA. Autor: Herrmann Rudolf Wendroth. Fonte: internet. Acessado em 14.4.2026.


"Júnior” era uma pessoa de princípios rígidos e temperamento agitado, por vezes envolvido em conflitos, como o ocorrido com o Cônego João Pedro Gay, Venerável Maçom (Hemetério também era maçom). A discussão ocorreu em razão do incentivo do juiz para que os habitantes da freguesia de Itaqui solicitassem a emancipação de São Borja, a sede mãe. Durante a altercação, Hemetério bateu com um chicote de mão no rosto do padre. 

A punição pelo impulsivo gesto foi sua excomunhão da Igreja Católica em 5 de julho de 1857. Neste mesmo ano, foi transferido de comarca, mas acabou abandonando a magistratura e se deslocou para Cruz Alta (PSPRS), onde exerceu a advocacia. Lá, elegeu-se vereador pelo Partido Conservador e, posteriormente, tornou-se presidente daquela câmara municipal por 5 anos.

Eleito por dois mandatos para a Assembleia Provincial da PSPRS, mudou-se para Porto Alegre, a capital gaúcha, em 1869, onde continuou a exercer a advocacia por 44 anos.

O Dr. Hemetério teve dois casamentos, o primeiro com Manoela Baptista da Silveira, que faleceu em 1874, e o segundo com Etelvina da Silveira Torres, da qual ele ficou viúvo em 1908. Foram gerados, em casamentos, 19 filhos que nasceram na PSPRS.

Suas andanças pela província o levaram a produzir a obra As Missões Orientais e seus Antigos Domínios, publicada em 1909. Este livro é considerado por muitos pesquisadores como o livro mais importante sobre a origem daquele estado.

O compêndio trata não apenas da Região Missioneira, mas inclui também descrições detalhadas sobre diversas Vilas e Freguesias das regiões serrana (Cruz Alta, Passo Fundo, Soledade, Palmeira, Nonoai, Júlio de Castilhos, São Martins, Santiago do Boqueirão e Colônia Jaguari), da campanha e da fronteira (Itaqui, Alegrete, Uruguaiana, Santana do Livramento, Quaraí, Rosário, São Francisco de Assis, São Vicente, Santa Maria, São Gabriel, Bagé, Dom Pedrito, Guaporé e Santa Cruz). Os deslocamentos eram realizados de trem ou a cavalo e, nesse caso, o viajante passava as noites ao relento.  

Fundou e reorganizou lojas maçônicas no país, além de participar da criação da Academia e Faculdade de Direito da PSPRS. Também foi membro da Academia de Letras Rio-Grandense.

O Dr. Hemetério José Velloso da Silveira faleceu em 23 de abril de 1913 no Rio de Janeiro (RJ), aos 89 anos. 

Em 1920, 7 anos após sua morte, foi publicado um mapa do RS (figura 3), com os limites dos municípios então existentes e o número de habitantes deles. A sua configuração mostra a diferença entre a quantidade de municípios existentes em 1852 (figura 1) e 1920. 

Figura 3. Mapa do RS, os limites dos municípios e sua população em 1920. Créditos: SEPLAN-RS/DEPLAN – 02/2015. Fonte: IBGE, online, acessado em 19.4.2026.

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¹Oigalê: termo que exprime, alegria, entusiamo, admiração.

²Macanudo: palavra que qualifica alguém como forte, bom, superior, bonito, poderoso, inteligente, prestigioso.

³ Tchê: equivale tu aí, tu, como vai, chê (pronúncia tchê, como na língua espanhola). 

Referências

Dicionário Gaúcho - Vocábulos e expressões gauchescas, 2020. Compilação atualizada e postada em 2025 por Colafina & Cascagrossa. (Blog do Blogger), online. Marcadores: Coisa de Gaúcho, Dicionário Gaúcho.

A Maçonaria e o Clero, 1895. Boletim do Grande Oriente do Brasil, Ano 20, Edição 7, setembro de 1895, relação de clérigos maçons na página 268. 

 Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, 2015. Mapa do Estado do Rio Grande do Sul, 1920. Créditos: SEPLAN-RS/DEPLAN – 02/2015, online, acessado em 19.4.2026.

Ministério Público do Rio Grande do Sul - MPRS. Memorial dos Membros do Ministério Público, mprs.mp.br/memorial/membros/1181, online, acessado em 16.04.2026

Silveira, H. J. V. da, 1979. As Missões Orientais e seus Antigos Domínios, Estante Rio-grandense União de Seguros-ERUS, Porto Alegre, RS, 548 p. 

Santos, P. C. dos, 2017. Dr. Hemetério José Velloso da Silveira, ALMANET, Itaqui, RS. Publicado em 18.8.2017, online, acessado em 15.4.2026.








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